Cantigas

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mandinga da Baiana: O samba de Juliana!

                                                               Foto: Divulgação
Juliana Ribeiro é uma dessas vozes que ficam na memória quando escutadas já pela primeira vez.



O timbre de contralto forte e seguro nos leva a pensar nas artistas de antes da Bossa Nova, com seus ataques cheios de espirituosidade e malícia tanto para o amor, quanto para a dor nas canções.



O samba é o estilo que escolheu (ou foi escolhida?) para eternizar-se entre as cantantes brasileiras contemporâneas.



Nascida na Bahia e se colocando no patamar das intérpretes brasileiras de nosso gênero maior, Juliana vem desenhando, ao longo destes anos uma trajetória fincada na exímia capacidade de emocionar a partir de matrizes que estão dispersas na nossa memória coletiva mais profunda: o samba e as raízes desta música que definem o que é o Brasil.
Juliana é isso: brasileira, brasileira e brasileira.
Força e afinco na mistura entre feminilidade e suingue que caracterizam sua performance.



A emissão vocal que traduz uma vontade de ser ouvida e entendida, além da pesquisadora que habita sua persona, fazem de Juliana uma estrela feminina única nesta cena baiana/brasileira.



O seu disco de estreia, um EP com seis faixas cheias de espírito e verdade, traz peças inéditas em que a renovação do samba situa-se ao lado da possibilidade efetivada da releitura.



Aliás, em se tratando de releitura, a faixa
Batuque na cozinha (Martinho da Vila / João da Baiana) talvez seja a que mais revele as qualidades intrínsecas da intérprete Juliana Ribeiro.



Malemolência, malícia, maestria e mandinga formam uma adjetivação aliterativa que expressa sua forma de entoar a cantiga espetacular dos cariocas, na voz da baiana.



Emoldurada por um arranjo simples e eficiente de cordas e percussões, a gravação nos coloca frente à frente com a sensação de estar no meio da roda de samba/batuque/macumba que evoca-se na letra jocosa e cheia de referências a um modo de viver negro-mestiço brasileiro.



Não fosse século XXI, diríamos que a cena ocorre num romance de Álvares de Azevedo, atualizado para um cortiço/bairro popular da Salvador/Rio/Sampa atual.



Juliana e sua voz quente e firme quase nos fazem tremer o corpo e a mente com o "nganga chorando na macumba..." que é inserido na gravação, nos inserindo na cena de numa senzala imaginária e cheia de identificações importantes para nossa compreensão enquanto brasileiros.



Somos descendentes desta quentura provocada e expressa no canto desta baiana.
O arrepio é inevitável ao ouvir o resultado de percussões, violões e vozes a evocar esta brasilidade recuperada na gravação.
O samba de Juliana é o samba de todos nós: estamos dançando com ela e nosso corpo vai no suingue do pandeiro que ela executa como instrumento - quase parte de si mesma. 
Vê-la tocando é muito prazeroso; as mãos se confundem e se fundem ao cantar!



Juliana Ribeiro mostra a que veio, e eu, colega e irmanado com a sua arte, tenho um enorme prazer de fazer parte da geração de cantores que podem dividir o palco e a trajetória com ela.
Estar ao seu lado é sempre estimulante e vê-la no tablado é uma possibilidade de contemplar o talento e a certeza de que a seta aponta para a frente... e rema com fé, estabelecendo um paralelo com as palavras sábias de minha amiga
Aline Tavares.



Juliana; sem tristeza, como você sabe: chora na macumba e faz a gente sorrir de alegria!



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Carlos Barros e Banda do Céu no Jequitibar, em setembro!

Carlos Barros no Show Você em minha vida, com canções de Roberto Carlos



Pedido de mãe é fogo...

Em se tratando da minha, que é da estirpe das amazonas de Oyá, o pedido é uma ordem.
Há muito ela vem me dizendo: Você devia gravar umas músicas de Roberto para mim...
Anos se passaram e eu resolvi atender: um disco encomendado, não vendável, não de carreira e não planejado foi feito e entregue.
Você em minha vida foi o título que achei mais apropriado: você mãe e você, Roberto.

Desde que comecei a trafegar pelas vias da canção, Roberto Carlos me aparece como um farol, ícone e processo em si mesmo da música deste país.
Cinquenta anos e parece que sempre existiu enquanto referencial do que é amor, paixão, força, fé, brega e chique.

Roberto simplesmente habita o lugar dos que são. Se Gal, Bethânia, Gil e Caetano me deram voz, Roberto me ensinou a cultivar uma parte da alma nada pequena e eterna, com a exata duração de uma vida.
Roberto Carlos merece honrarias e laudas. Sua música merece ser cantada, sempre, sempre, sempre...

Dos botões da blusa existencialista que observa a cena de espera à estrada de Santos fenomenal, da urbanidade brasileira das auto-estradas, este compositor (irmanado na poesia do parceiro Erasmo) revela muito do Brasil mais que profundo. 

Se Pelé é a contradição étnico-racial deste país, Roberto é a resolução da plástica do cancioneiro.
Sua obra é una e variada; cada um de nós, cantores tem um pouco de Roberto internamente - e quem não tem, que cultive o seu já, já...

O show Você em minha vida é, também, uma recuperação do meu amor pelo formato violão e voz, e ao lado de meu parceiro de sempre, Harlei Eduardo, faz com que eu possa dividir o tempo entre Cantiga vem do Céu (meu show mais recente, fruto do meu CD de estreia) e os projetos paralelos que tanto me enchem de alegria.

Arranjos simples e sofisticados do violão de Harlei e minha voz entregue à máxima possibilidade de cantar o Rei. Não, eu não sou Bethânia, Simone, Nana, Gal, Adriana...
Sou Carlos Barros e venho me colocar num lugar que acredito ser meu neste séquito de vozes a cantar o que cantou e canta Roberto.

Como diria Maysa, nesta coragem que me toma: Roberto, eu sou mais você e eu! Minhas musas que me abençõem!

Taí, mãe,
as canções que Roberto fez pra Ana e que o seu filho agora canta!

Afinal, para quem mais eu poderia dedicar este espetáculo, mesmo?

 

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Carlos Barros canta no Coletivo Os Multipétalos, na Biblioteca Pública dos Barris, neste domingo, 15 de agosto!

Alana Muinhos, Carlos Barros,
Lucas de Souza e Déia Ribeiro são
Os Multipétalos
Alegria, Força, Descontração

A Banda Multipétalos é formada por:
Marcus Lima: Bateria
Harlei Eduardo: Violão
Pedro Ivo Aráújo: Guitarra

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cantiga vem do Céu chega ao Rio de Janeiro...


Para vocês que acreditaram , torceram ,apoiaram , vibraram ,aplaudiram, co produziram ..

... enfim de alguma forma ajudaram a construir esta primeira ponte Bahia-Rio:

O nosso MUITO OBRIGADO!!!!!!!


E lembrem-se que CANTIGA VEM DO CÉU !


ESPAÇO RIO CARIOCA

 
JORNAL O GLOBO


Thathi

 
Déia Ribeiro

 
Harlei Eduardo

 
Charles Teony

 
Beto Bomfim

 
Eduardo Carranca

 
João Luiz Souza –CORUJÃO DA POESIA


Eduardo Vanzan


Yuri Fonseca


Yasmine Saboya


Rosy Nery


Gilson Luiz


Georgia Victor


Marcus B2


Luciana Menabarreto


Fernanda Alves


Maúcha


Domitilla


Bel Mendes

 
Jade Guimarães


Marlon Marcos


Luzia Moraes


Jota Veloso


Rose de Paulo


Claudia Cunha


Yá Odalice do Carmo


Tiganá Santana


Márcia Barros

 
Lúcia Marsal

 
Dôra Almeida


JEQUITIBAR


BIBLIOTECA PUBLICA DOS BARRIS


CASA DA MÃE


TOM DO SABOR


ILÊ AXÉ ODÉ YÊYÊ IBOMIN

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Carlos Barros e a estreia no Rio de Janeiro

Jorge Ben Jor e Carlos Barros, na Livraria Letras e Expressões do Leblon, em 20 de julho de 2010, após apresentação de Carlos Barros.
Foto: Luzia Moraes

O Corujão da Poesia é uma vigília musical e poética nas madrugadas de terça-feira no Rio de Janeiro. O organizador, João Luiz Souza é um sucesso no Leblon: traz gente de todas as idades e tribos, que se encontram para celebrar as deusas música e poesia.
J. Veloso e Thathi me deram a honra de estar presente nesta festa, cantando, recitando e mostrando uma noite baiana no Rio de Janeiro.
Os bai(hunos)anos na Baía de Guanabara mais uma vez!
Tríade de magia baiana!
AXÉ!
O padrinho Jorge Ben Jor viu, ouviu e aprovou: "que música linda, essa Abiã", sentenciou o mestre ao ouvir-me cantá-la. Parabenizou um dos autores, J. e me vaticinou com o talento da música e da poesia, segundo sua precisosa avaliação!
Jorge, ainda BEN que você está na ativa e entre nós do planeta música no Brasil!

"Bilie Jean, cadê você
No Corujão da Poesia!"

Axé Jorge Ben Jor!
Axé, Rio de Janeiro!
Axé, Brasil!
Cantiga vem do Céu está somente começando...

Luzia Moraes e Nanda Alves mandaram bem na Produção dos artistas baianos!
Dil Guimarães, minha parceira de produção: a mil, à distãncia e atenta!

Gracias a todos!!!!!!!!!!!!!!! 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Carlos Barros e Cazuza: Homenagem baiana por J. e Luzia

    Carlos Barros na homenagem a Cazuza, 04 de julho de 2010, Biblioteca Pública dos Barris,
Salvador, Bahia, Brasil
Foto: Uran Rodrigues

Meu partido é um coração partido...
mas como meu tempo é quando, falo tal e qual Cazuza: pode seguir a tua estrela!
a minha está no CÉU a reluzir!

Obrigado Luzia, J., Uran, e todos os demais participantes!

Axé, Brasil!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

São Paulo é como um mundo todo, no mundo me encontrei como a um grande amor!


Cantiga vem do Céu chegou à São Paulo, depois de uma temporada no interior de Minas Gerais, na cidade de Pouso Alegre. Nada mais sintomático que iniciar as viagens deste disco e show que chegar  pousando com alegria, leveza e ternura, características da Banda do Céu, do disco e, por que não, do próprio intérprete Carlos Barros. Eu, na minha persona cantor, me situo como um fauno cantante de alma doce e sutil, instigante e querendo o mundo.

Cantiga vem do Céu passou levemente por São Paulo e, lá, me fez descobrir o barato mais caro que percebo: cidade é cidade: São Paulo é o Brasil por dentro.   Em Pouso Alegre descobri a gentileza e a força dos mineiros. Em Sampa, percebi que a Bahia e o Rio de Janeiro são contrapartes do paulistanismo: luzes à toda, escadarias gigantes a mostrar miséria e quereres, opulência, religiosidade, serviços, culturas.
É assim; a música pede e eu vou.
Somente posso dizer o seguinte: quando você for à São Paulo, saiba que Carlos Barros e Banda do Céu estão lá; parte integrante da atmosfera (menos suja do que se pensa), na música que emana das esquinas frias e sujeitas ao Brasil, aos brasileiros, aos japoneses, aos africanos, aos baianos, cariocas e a mim.

Quando for à São Paulo, saiba que Cantiga vem do Céu, o Projeto, e Carlos Barros querem exatamente o mundo todo!

Salvas à Daniela Mercury e a Marlon Marcos! 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sentado à beira do caminho...

Um bom lugar pra encontrar...
Morena, quando tu for, me leva!

domingo, 2 de maio de 2010

Boca e Precipício


A minha boca é um precipício para ti?

Abaixo, letra de João de Barro e Alberto Ribeiro.
Ouça com a Gal!

Compre o meu disco e assista o meu show!



Fon fon

                                                         João de Barro /  Alberto Ribeiro
                                                                                     1937


Essa buzina não tem bom som
Eu gosto mais da que faz assim: fon fon
Mas não avances, olhe o sinal
Podes partir o diferencial
Teus olhos verdes me disseram: pode entrar
Acelerei, não é possível mais parar
Tu tens mais curvas que o trampolim
E a tua boca é um precipício para mim
Quando passarmos lá no Leblon
Pra turma ver vou fazer assim: fon fon
Mas eu não entro num páreo assim
Em que o desastre é feito só pra mim
Não tenhas medo que eu sou bom na direção

Não corro muito e ando sempre em minha mão
Queres fazer-me o teu fon fon
Mas eu não vou nessa conversa de fon fon


quinta-feira, 22 de abril de 2010

No tempo em que festejavam os dias de nossos anos...


Hoje aniversaria a "blague de Pedro Álvares Cabral", como diria Álvaro de Campos! 
Não iria mesmo escrever nada, mas... como diz o povo: o diabo atenta, não é?
Recebi uma mensagem que é de uma série de mensagens recorrente de um amigo, contra o governo, a imagem, os nove dedos e até a barriga do Lula.
Não morro de amores pelo PT (e tenho razões de sobra pra desconfiar de certas práticas das gestões desta esquerda atual...), mas também não sinto esta agonia com o Lula.
Na verdade, sua figura, por si só, me traz olores de novidade, nesta bruzundanga que somente Lima Barreto poderia tão bem mimetizar.
Não há dúvidas que este pernambucano forjado entre o sertão e o metal do ABC paulista tem uma importância histórica no plano geral do Brasil que só percebemos na figura também controversa de Getúlio Vargas: do mesmo modo  - guardadas as proporções do populismo fascista do gaúcho -  temos uma ascenção de novos valores sociais e, na Era Lula, uma perspectiva menos elitista a respeito da cultura e de muitos aspectos sutis da configuração deste povo brasileiro.
A corrupção no Brasil não começou com a Era Lula e não vai terminar com o término deste momento político. Enquanto administração, este denota os mesmos vícios de outros tais: aliás, a governabilidade se faz -  de fato -  a partir de uma série de conchavos, conflitos e acordos que são podres (e historicamente) por natureza: a política, enquanto atividade da pólis nasce da manutenção de interesses de uma maioria representativa (os cidadãos gregos, lembram?) e no caso do Brasil, esta maioria está representada numa burguesia entreguista que barrou por duas eleições a emergência deste político que é apontado como bêbado, analfabeto, iletrado , etc. Não falamos dos jantares de outrora (antes, muito antes do Lula sonhar perder o dedo numa máquina industrial) regados a Möet Chandon e outras bebidas que eu - um abstêmio de carteirinha (sic) -  não sei dizer nem o nome. 

Somente devemos pensar que talvez as críticas que estamos fazendo a ele hoje -  todos nós brasileiros ligados na TV aberta e refogados com o cozimento da protegida de Santa Clara -  são produto também de uma lógica mental proveniente dos mesmos valores burgueses que se apresentam famintos da usurpação dos bens públicos em favor de poucos, muito poucos. 

Se o Bolsa Família é assistencialista, ora, de que país falamos, mesmo?
Somos um país de miseráveis, no qual a beleza de Copacabana convive lado a lado com a pobreza de Valéria e com a fétida sujeira das ruas da Bahia... 
A favela da Rocinha é vizinha da opulência e do frio, cáustico e Global do Shopping Leblon...

Em resumo, a Era Lula vem ensinar a todos nós que a história não se desfaz em duas, três ou talvez em mil gestões: administração está ligada a contexto e contexto desfavorável, é nosso patrimônio que aniversaria hoje, não é mesmo?
Que nos digam a nós mesmos: mulheres, negros, paraíbas, gays, crianças, idosos, brasileiros.

De todo modo, viva o Brasil!
Viva Lula, ACM, Serra, Dilma!

Vamos todos para New York?
Adoraria trabalhar na Runway (lembram do filme  
The Devil wears Prada?)

Viva o povo brasileiro!

Ah! E vão assistir o meu show, tá bom?

Carlos Barros e Banda do Céu convidam Cláudia Cunha, no Jequitibar, em 11 de maio.

Carlos Barros e Banda do Céu convidam Sandra Simões no Jequitibar, em 27 de abril

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Doce de Carnaval!

Toda menina baiana tem um santo que Deus dá. E deus me deu Santos, Bahias e alegrias neste verão de 2010. Shows, discos no Brasil, entrevistas e contatos para a vida inteira. 

No carnaval de Salvador, o Trio tocou com Carlos Barros presente. O convite veio da Banda Salada Mista e junto a Wilson Carvalho e Wil Carvalho eu pude levar o carro, tocar o bonde e andar com a carruagem de fogo, brilho e fulgor que é o Trio Elétrico na Bahia. Muotas estrelas, mas apenas uma galáxia: No palco estava à frente a força da beleza da força da beleza; e ela me tocou...

A menina baiana que tem Santo me chamou e eu pude estar na Avenida com a sua voz; cantora, amiga e mito. Márcia Short, o timbre que anunciou as voltas que o mundo dá e que deu voltas ao mundo com o mel de seu caminho, deu-me a mão e chamou: 

Entrei na Avenida junto aos seus médio-graves em Toda Menina Baiana, em frente ao Edifício Oceania, numa ponta da história da cidade. Cidade Elétrica que pariu Short, Barros, Mercury, Gil, Gal...

Tinha que começar por Gil. Meu pai, meu ícone e referência de MÚSICA! Ela me chamou; eu fui e continuei.

Os sambas de Clara e os afoxés de Moraes ocuparam o ar e eu pude ouvir minha voz nos céus do litoral da Bahia, pertinho do ouvido apurado de Iemanjá.

Olhares, mãos para cima, pessoas na madrugada do carnaval que começava a terminar, numa segunda-feira que tinha cara e cheiro de festa.

Cantei mais uma vez entre improvisos e números ensaiados nos anos que tenho de folia; pulo desde os dezessete: Timbalada e os tambores na rua, Margareth e os trovões de voz; Ivete, quando a música era mais que tudo; Daniela, me ensinando que seria seguidor para sempre...

São dezesseis anos de uma vida de trinta e três. Muito tempo na festa da Bahia; muito tempo até chegar à primeira experiência do palco (andarilho) encantado(andante).

Eu disse numa entrevista que não era exatamente um artista do carnaval e interpelado pela querida Dóris Pinheiro, ouvi que não tinha disso não - ajoelhou, tem que cantar!: tudo bem; súdito sou: de Momo, de Baco, de Exu!

Evoé, um jovem à vista!
Carnaval; você acabou de ganhar mais um cantante-andante com fé!


Short: ano que vem tem mais?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cultura para quem?

Uma versão bem particularizada do conceito de cultura vem sendo defendida com unhas e dentes no cenário artístico brasileiro recentemente.

Em se tratando de Bahia e no período do carnaval então, esta cultura nova e antropológica/politicamente correta vem se tornando hegemônica e - por que não - opressora.

A cultura (que nos recupera existencialmente...) a que me refiro virou moda entre aqueles que querem parecer adequados aos novos modos de perceber o mundo e, portanto, contemporâneos (muitas vezes sem a dimensão mais profunda do que isso possa significar). 
Segundo esta lógica, esta cultura precisa vir "do povo", estar conectada com os anseios "populares" e expressar alegria, espontaneidade e o modo de vida "do povo".
Me pelo de medo (no sentido mais baiano possível) desta necessidade de enaltecermos o "povo" enquanto unidade sociológica e com características bem definidas.

Estou apontando minha lente para um discurso que correntemente aflora durante o carnaval e que adorna nossa construção identitária chamada pos muitos de baianidade: segundo esta ideia, o carnaval precisa voltar a ser popular, e esta expressão de popularidade apresenta-se em alguns artistas em específico, que falam a "língua" do povo e para o "povo" fazem seus trabalhos.

Será que há um "povo"?
Será que a arte industrial do carnaval pode ser isenta de interesses para além daqueles "do povo"?
Fico curioso com a defesa manifesta de lobos maus, beijos e extravasamentos, seja no axé ou no pagode.

O Psirico é uma banda muito interessante.
Ivete Sangalo é uma performer de grande expressão.
Cláudia Leitte chegou, não é?

O "povo" do bairro do São Caetano, Canabrava, São Tomé de Paripe, Fazenda Coutos gosta muito de todos eles (pelo menos em representação ampla).

Este "povo", entretanto, não compartilha do modus vivendi deles e nem poderiam. Mas sua arte é associada muitas vezes a um gosto popular que, por si só, sustentaria suas experiências estéticas recheadas de referências-estereótipos de "povo". 
Na TV baiana, sangue embrulhado em jornal (como na canção de Tom Zé, da época tropicalista). 
Na canção pop baiana a possibilidade de colar na corda e de ser o lobo mau (que come, come, come). 
Tudo bom, lindo e divino!
E a possibilidade de o "povo" ser orquestral, pop,lírico e profundo?
E a possibilidade de o "povo" não ser tão "povo" o quanto se pensa?
Não me nego à sexualidade nas canções.
Não me nego à sensualidade das pernas e músculos das(os) vocalistas. Me gusta mutcho, sobremaneira últimas palavras...
Mesmo que eu não vá para ver, eu não me nego a quase nada. 
Só me nego à violência simbólica da retroalimentação dos estereótipos. E aqui não é papo furado!

Gente é pra brilhar, Caetano!
E eu quero o brilho. 
Quando Carlinhos Brown traz o Zárabe e fala de negritude afro-ameríndia é importante que este "povo" compartilhe: da negritude na cara e no nariz dele e também da escolarização informal que é possível através da música popular (e viva Paulo Freire!) 
Isso não matará o lobo mau (com certeza)!

Quando Daniela Mercury coloca pianos, bachianas, orquestras e meninos no trio, é preciso que o "povo" possa escolher fruir e gostar, posto que pianos, bachianas, orquestras e meninos fazem parte do mundo da vida (como diria Habermas).
E o "povo" merece ter tudo isso.
Ou não?

Quando o carnaval passa da esculhambação (tão bem defendida pelo professor Milton Moura) e chega à indústria cultural organizada em torno dos afluxos e multiplicações do capital, é preciso que nas prateleiras desta indústria haja Margareth e Fantasmão; Asa de águia e Timbalada; Pagode e MPB.
O conceito particular de cultura que ora se hegemoniza parece querer dar a César o que é de César; ou seja dar a preto o que é de preto. Dar a pobre o que é de pobre.
E o que é mesmo o que é de preto, meu "povo"?
O que é de preto é o roteiro da novela de Manoel Carlos?
O que é de preto é a sensualidade historicamente liubertadora e aprisionante da preta, luz da noite?
O que é de preto e pobre (que pelo menos parecem ser como podres, não é?) pode ser mais um pouquinho mais do que oferecem lobos maus e professoras de roupas pouco convencionais. 
A questão, aliás aqui posta, se dá no sentido de investigar a convenção:
estamos mesmo enaltecendo o "popular" nos discursos que querem negar ao povo o direito de ter experiências estéticas mais universalistas?

Queremos o diferente no que é o mais do mesmo?
Podemos ter brioches no lugar da "bolacha mata fome"?
Podemos querer caviar no lugar da farofa de feijão de todo dia?
E eu, ao dizer isso estarei sendo o elitista em lugar de todos os que entendem o que o "povo quer"?

O que podemos, então, a partir deste novo conceito antroplógico de cultura?
Podemos comer faisão?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carlos Barros no Congresso Brasileiro da arte de Maria Bethânia

Congresso discute canto, arte e trajetória de Maria Bethânia



Marlon Marcos

Especial de Salvador (BA)


Nos dias 4 e 5 em Salvador e no dia 6 de fevereiro em Santo Amaro da Purificação (BA), vai se realizar o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia em 45 anos de Palco, evento dedicado a analisar sua trajetória artística numa perspectiva científico-acadêmica, envolvendo estudos multidisciplinares que abrigam a antropologia, a história, a sociologia, teorias comunicacionais, análise do discurso, letras, literatura, poesia, cultura popular, artes visuais, cordel e música.

Pela primeira vez a obra de uma intérprete da Música Popular Brasileira é discutida sócio-antropologicamente através de leituras científicas e artísticas para revelar o seu conteúdo de relevância sócio-cultural que exprime identidades e identificações no nosso país.


O congresso, de projeção nacional, contará com nomes como o da professora mineira Lúcia Castello Branco, do sociólogo Milton Moura, da editora Leila Name, do maestro Jaime Alem, do poeta e compositor José Carlos Capinan, do compositor Roque Ferreira, do músico Roberto Mendes, de Gerônimo, da dramaturga Aninha Franco, do sociólogo e cantor Carlos Barros, da poeta e irmã da cantora, Mabel Velloso, do compositor Jota Velloso e da professora fluminense Vânia Aparecida, entre outros. Os nomes representam a diversidade a que o evento se propõe e todos partem do princípio de que um trabalho com a qualidade como o de Maria Bethânia, serve como instrumento de investigação social, no caso dela, etno-histórica, para compreender as perfilações culturais que traduzem o povo brasileiro.


As marcas estéticas e os caminhos artísticos trilhados por Maria Bethânia a colocam num lugar de destaque no nosso cancioneiro no que se refere a elementos da cultura afro-brasileira, à difusão da poesia de grandes literatos portugueses e brasileiros, à intertextualidade entre canção e teatro, a recursos cênicos que tratam da paisagem nativa nacional, evocações do nosso ruralismo, utilização da literatura entremeando nossas identificações regionais; a cantora é incansável em sua busca por traduzir com seu canto parte desta complexidade chamada identidade cultural brasileira.

Em sua construção sócio-existencial, de mulher baiana, mulata (ou mais amplamente negra), próxima de duas matrizes religiosas, o candomblé e o catolicismo, conhecedora dos traços da criação popular em sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, Maria Bethânia é a porta-voz artística das coisas grandes que a cultura popular produziu entre nós; ela leva para o palco fragmentos narrativos de mitos afro-brasileiros, sua voz quando canta, muitas vezes, conta a história de como foi desenhada a Bahia litorânea, do Recôncavo, entre a abundância de água e a força seca do sertão dali tão próximo. Ela é a caipira que se sofisticou e não quis deixar de ser caipira. Como Clarice Lispector que é a própria Macabéa, Maria Bethânia é um griô afro-baiano universalizando, de modo respeitoso e fragmentado, mitos e ritos que compõem o imaginário sagrado do povo-de-santo, o povo do candomblé, do estado em que ela nasceu. E é inquestionavelmente brasileira, representando a força musical deste país no mundo. Por estar tão ligada a aspectos identificatórios do que percebemos como Brasil, talvez Bethânia seja a cantora mais universal que temos viva e, sem dúvidas, sua ativa presença no cenário da canção há quarenta e cinco anos, escolhendo cantar o tipo de Brasil que escolheu como seu, como podemos verificar no clássico Brasileirinho (2003), lhe confere o título de Doutora Honoris Causa em antropologia. A Universidade Federal da Bahia deve isso a ela.

Portanto, o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia traz para o centro das discussões acadêmicas uma intérprete que se imprime como uma autora, que usa sua inteligência, sua voz e seu talento artístico para pensar e dignificar o povo de seu país. Celebra também os 45 anos de carreira da artista, que serão completados em 13 de fevereiro de 2010 (data oficial da estreia de Maria Bethânia no antológico Opinião, no Rio de Janeiro). É uma realização da Associação Cultural Rosa dos Ventos - Bahia, que tem como membros organizadores Neide de Jesus (idealizadora do Congresso), Joaquim Amaral, o autor deste artigo e Andréia Vieira.

Serviço:


Evento: Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte da Maria Bethânia em 45 anos de Palco.
Realização: Associação Cultural Rosa dos Ventos - Bahia.
Local: Teatro Martim Gonçalves
Endereço: Rua Araújo Pinho, s/n, Canela - Salvador-Bahia
Dias : O4 e 05 de fevereiro de 2010, das 9:00 às 18horas.
Investimento: 40 reais
Inscrições: www.mariabethania.com ou pelo telefone (71) 9982-5805 (ainda há 50 vagas).


Obs.: as atividades do dia 06/02/2010 transcorrem em Santo Amaro da Purificação e correspondem a um passeio cultural e turístico pelos locais mais amados pela cantora Maria Bethânia nesta que é a sua cidade natal.



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