Cantigas

domingo, 26 de setembro de 2010

E eu e eu e eu e Gal...



Em se tratando de música a minha casa tem quatro moradas: Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa.

Em se tratando da última listada, os caminhos que levam a esta casa minha são os mais nítidos e óbvios para mim.

Comecei a entender o que era canção a partir de Bethânia.
Gil me ditou as regras da linguagem musical.
Caetano mostrou por que veredas podemos ir para alcançar o máximo entre letra e melodia.
Gal Costa me possibilita cantar.

Hoje, com 65 anos de idade e mais de quarenta de carreira, esta artista (cuja cota de beleza e competência já ultrapassa qualquer comparação) está mais viva do que nunca, tanto física quanto artisticamente.

Sua proposta estética de limpidez gradativamente em crescimento, sua atenção mais que privilegiada com a VOZ enquanto instrumento perfeito/imperfeito a ressoar almas e êxtases como quem sopra o vento displicentemente (tal como a sabedoria de Gil em O Compositor me disse) e acima de tudo, sua despreocupação aparente com o texto enquanto intrumento de expressão fazem de Gal não a nossa maior cantora - canso desta história, inclusive... -  mas o que temos de mais original na história recente do canto no Brasil.

Eu exagero?
Não, constato!

Gal Costa trouxe leveza ao lado de modernidade: refez a falsa baiana faceira e rebolativa e a colocou no patamar da musa minimalista de João Gilberto; atualizou Carmem tropicalientemente; fez o Brasil cantar em acordes de exaltação desde Ari e David Nasser; mostrou os peitos cinquentões em uma fase de perfeição vocal e cênica; passou por crises políticas, fez política com o canto; foi Caetano enquanto este não era aqui; saudou a Bahia, fundando uma estética cotidiana desta terra e cidade;  recentemente lançou luzes sobre compositores desconhecidos, enfim, foi, esteve, realizou e está, sobretudo, está.

Não mais há como questionar que Marisa, Vanessa, Roberta são filhas diretas não somente nos timbres, mas numa maneira especialíssima de traduzir em sons palavras na canção brasileira.

Certa revista hoje não mais muito conceituada apresentou matéria em que o nome Gal não aparecia como referência.
Como estas páginas já "amarelaram" mesmo de tão velhas...

Gal não somente é referência como é presença.
Sua expressão como artista tem diminuído por que - como o fazem as divas mais especiais - sua aparição diminuiu, mas seu canto ecoa a cada cantar contemporâneo que revele sutileza, leveza, intensidade na água cristalina e por vezes turva, quando necessário é.
Mais uma vez a pecha de "diva fria" não pode lhe caber: Baby (Caetano Veloso) não seria a mesma sem ela. Barato Total (Gilberto Gil), também. Mais recentemente o brilho de Abandono (Caetano Veloso) não estaria à altura sem sua intervenção.

Quanto a mim, que posso dizer desta artista em minha vida?
Não pretendo rompimentos estéticos além daqueles estritamente necessários.
Gilberto Gil revelou que quando chegou à cena, tudo que queria era ser Jorge Ben.
Gil tornou-se Gil...
E eu?

Péricles Cavalcanti compôs uma obra fantástica sobre outro gênio da música: Eu queria ser Cássia Eller.
Hoje, em setembro de 2010, quase um ano depois de ter lançado meu disco de estreia, quando o ouço e quando ouço tudo (de bom e sobretudo de ruim) sobre mim e meu canto, aí me dá mais vontade de dizer:
licença Péricles, mas eu não somente queria ser, como me esforço o tempo inteiro para me ser, em sendo Gal Costa!

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