
Cidade que canta!
Cidade de Áries!
Salvador foi desembarcada nas mentes dos portugueses em 29 de março de 1549 como uma nau indígena feita de madeira e muito sangue!
Esta cidade que canta, como diz a letra da canção (e de tantas outras modinhas, lundus, sambas, reggaes, ijexás, valsas...), é a mesma cidade de Sol em Áries e Lua em qualquer outra constelação de água que acolhe, recolhe e descobre (de tirar o cobertor) seus filhos mais ou menos ilustres, conhecidos ou anônimos.
Amo Salvador o tanto quanto a odeio.
Odeio seu trânsito infernal e sub-desenvolvido!
Odeio sua vocação manifesta para a seriedade que é deixada para depois e postergada como valor menor - isso é coisa para gente de São Paulo, não é?
Odeio o Feudalismo tardio de suas posses tanto em bens materiais, imateriais, humanos e sobremaneira desumanizadores.
Odeio a Salvador dos canais de TV ao meio-dia, com sua permissividade absurdamente construída sob o argumento de que "o povo gosta de ver a realidade"!
Odeio!
Odeio!
Odeio!
E sobretudo, nestes 460 anos de vida, acho que nem vocação para ser a ariana torta tal e qual a da letra de Márcio Mello, esta cidade de fato tem.
Salvador nasceu para quê, mesmo?
Minha cidade veio para assumir o posto de "Rainha do Atlântico Austral" parafraseando o santamarense Caetano Veloso, mas poucas vezes conseguiu passar da Roma Negra em estado de falência com seus habitantes mais nobres - seu povo negro/mestiço que constrói riquezas que se tornam as ruínas de amanhã para os banqueiros da miséria eternizada na falta e na míngua à mostra nas portas das igrejas de ontem, de ouro e de sotaque lusitano, católicos de sempre.
Odeio a Salvador que se coloca como guardiã de uma ancestralidade que ela mesma vilipendia diariamente ao negar educação verdadeiramente de qualidade para seus habitantes mirins, que de futuro só têm mesmo a recorrer aos espíritos que aqui se fincaram, sendo protetores e guardas de todos que habitamos esta urbe grandiosamente mal tratada; da orla marítima que entrega ao mar uma paisagem nada agradável para os requintes das pratas e ouros a que está acostumada a verdadeira Rainha Iemanjá.
Mas do que tanto odeio de fato nesta minha cidade, sai também - como a luz da escuridão da poesia de Gil - a flor de lótus que me mantém baiano, soteropolitano e orgulhoso das duas condições: Oxum nos pariu, Iemanjá nos criou, Oxóssi nos deu de comer, Iansã nos levou à escola e Oxalá (ao lado de Xangô) nos deu o código moral, que em muitos momentos é cobrado pela sabedoria anciã e valiosíssima de Nanã e Omolu. Assistindo e rendendo loas, Nossa Senhora e Cristo Jesus ficam a nos cobrir com mantos azuis de calma e benevolência.
Logunedé, com sua jovialidade e Oxumaré com sua astúcia estão sepre a colorir os céus para que possamos enxergar a beleza do ar desta localidade estacionada na boca de uma baía que é das mais lindas no planeta.
Odeio muitas Salvador e a minha iminente ida para longínquas praças somente fará sentido por saber que daqui sou. O índio caboclo guerreiro vai encontrar com Araribóia, Raio de Sol no mar da Guanabara!
Afinal, como diz Aldir Blanc: regressar é reunir dois lados da dor do dia de partir!
Temos saudade até das feridas que cicatrizaram na pele, nem que seja para dizer que fomos vitoriosos sobre a dor, não é mesmo?
Odeio a aniversariante e a amo por ser o chão de onde brotou a comida que alimentou o corpo da minha avó, a me dar a mãe que os ventos me deram: amo Salvador por ser a mãe da mãe deste baiano.
Odeio e amo ao mesmo tempo ter que louvar todos os anos esta cidade; minha racista, homófoba, e agora cada vez mais separatista cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos.
Áries é o signo solar de Salvador e está na Casa IX do meu mapa natal.
A Casa IX é a casa da religiosidade e das filosofias superiores. Estou, então, sempre em pé de guerra com tudo que é deveras superior...
Áries é o oposto cmplementar de Libra - o meu Sol.
Estou em oposição complementar a esta cidade onde nasci. Amo o fato de poder odiar tudo que me causa escárnio em estar aqui, pois amo poder amar a cidade sabendo de suas agruras, de suas vulcânicas crateras, a lançar chamas que acabam por renovar todo amor e ódio que eu sinto por ela.
Salvador faz mais um ano solar de existência. Eu celebro isto (mesmo que pareça um bombardeio sem fim), pois sou como Álvaro de Campos: quando vim a ter esperança, já não sabia ter esperanças... no tempo em que festejavam os meus anos eu era feliz e ninguém estava morto...
E a minha esperança para este dia é de que eu cotinue podendo amá-la e odiá-la como filho que sou, que por vezes ama questiona a família por ter te colocado em lugar tão hostil quanto o mundo dos sentidos de Platão.
Platão/ Plutão. Aliteração muito significativa!
Por fim, amo Salvador e quero que sua existênca possa nos ensinar o quanto a beleza está plutonicamente associada à sua miséria, pois, certamente, se Salvador é ariana de Sol e aquática de Lua, no seu mapa natal, o ascendente, com toda certeza só pode ser Escorpião!
Feliz 29 de março!!!!!!!!!